segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Capitulo 5 – Na rua. Na chuva, na floresta

Logo após ter morado por 4 anos no Rio de Janeiro, fomos para Manaus, uma cidade construída no meio da selva Amazônica, uma cidade quente e úmida, tão distante de tudo que eu já havia conhecido, sempre viajamos de carro, mas dessa vez tinha que ser diferente, pois era impraticável rodar tantos quilômetros do rio para Manaus, dessa vez iríamos de avião.

Era tudo tão lindo, e tão novo, em uma época que voar de avião era sinal de status, em que não havia toda essa zona e desconforto como há hoje, embarcamos em um vôo da falida Trans-Brasil, as aeromoças, foi uma viajem tranqüila, eu não parava de olhar para a janela, para ver tudo lá de cima, era como se fosse um sonho, eu voava acima das nuvens!

O momento da aterrissagem foi tão ou mais emocionante quando o da subida, com tantas emoções, eu imaginava que morar em Manaus seria fantástico, ao desembarcar, encontramos meu pai e meu irmão mais velho nos esperando, eles tiveram que vir antes, pois o Otávio tinha que ter aula no colégio militar, e meu pai, que arrumar tudo para agente morar.

Chegando ao estacionamento, todas as minhas expectativas foram destruídas ao ver o possante que meu pai havia adquirido um opala velho, carinhosamente apelidado de “Dragão”, era um opala verde musgo, que mais parecia uma carroça enferrujada, mas o opala estava à medida do que haveria por ir, chegando ao lugar onde moraríamos, uma casa velha caindo aos pedaços, em um enorme quintal sujo cheio de mato, que crescia por todos os lados, nomeada de “Pocilga” moramos por 2 anos nessa casa, não tínhamos quase nenhum móvel, pois ficaria muito caro para transportar até Manaus, então tudo que possuíamos, vedemos ou damos. A casa era razoavelmente grande e vazia pela falta de móveis, quando olhei para o lado vi minha mãe, e minha mãe chorou.

Ao mesmo tempo em que foi triste ver minha mãe naquele estado, foi completamente engraçado ela chingando meu pai com palavras do tipo:

-Seu idiota, olha o lugar onde você nos enfiou você me prometeu que seria um lugar ótimo, em vez disso, você nos coloca nessa “Pocilga”.

E como tudo na minha casa vira piada, não foi diferente dessa vez, foi ai que o nome da casa nasceu.

Nas primeiras semanas que moramos em Manaus, minha mãe foi fazer um curso de guerreira na selva, e acabou que ficou somente meu pai e meus irmãos, o contribuía pra zona e o desconforto ficar maior, ainda era período de férias para mim e meu irmão. E meu pai nos levou a diversos lugares, shopping, clube, zona franca, e o ao teatro amazonas. A cidade era muito estranha, não havia muitos prédios altos, e havia muita pobreza, muitos descendentes de índios habitavam aquela cidade, era um povo moreno, baixo, de cabelos extremamente lisos, e negros. Um povo que vai alem da minha compreensão.

Em Manaus a cultura do sexo era o que imperava, onde sexo era algo tão comum quanto fazer compras, lembro do meu pai falando de modo irônico: nessa cidade não existe corno, todo mundo é de todo mundo.

E realmente era verdade, minha mãe contratou uma empregada para ajudar a limpar a “Pocilga”, ela era muito semelhante aquelas índias que aparecem nas novelas de época da globo. Baixinha, magrinha morena e com os cabelos negros lisos, ela possuía apenas 18 anos, e já era mãe de uma linda criança de 4 anos de idade, o que era muito comum por lá, afinal a lenda do boto perdura por lá até hoje.

Manaus era muito quente e úmido, chovia todo dia exatamente ao meio dia, mas não adiantava muito, pois continuava extremamente quente.

Seja na rua, na chuva, ou na floresta, foi muito bom viver de coisas que eu nunca poderia imaginar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Capitulo 4 - Simples como devem ser...

E assim cresci.. uma criança normal, como todas as outras, com todos os sonhos e desejos de uma criança normal, ainda lembro da minha primeira escola, a despedida da minha mãe... como as outras crianças pareciam-se distantes e de um mundo completamente diferente do meu, seres que eu não conseguia entender, nem muito menos permitir que invadissem meu mundo de imaginação.
Onde cabia somente uma pessoa: EU...
Assumo que isso é algo meio estranho de se falar... Mas fazer o que? Fui uma criança um tanto mimada, porém nunca deixei a minha simplicidade, apesar de minha mãe oferecer muito mais do que eu necessitava, eu sempre me contentei com o pouco, não para aparecer, ou muito menos pra tentar demonstrar alguma coisa, mas as coisas realmente não me despertavam muito interesse, foi ai que um mundo novo, totalmente complementar as minhas fantasias se tornou tão interessante, o desenho.
Foi como se eu pudesse enxergar em algum lugar que ninguém mais poderia ver, voar mais alto que qualquer avião, passava horas fazendo linhas, traços, pontilhados, que ao ver de uma pessoa moldada pelos padroes normais da sociedade, consideraria sem sentido, e sem razão, mas para mim tinham sentido, nome, forma, cheiro e cor.
Coisas que eu vivia, coisas simples como devem ser.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Capitulo 3 – Fragmentos

Como são vagas as minhas lembranças dos meus primeiros momentos no mundo, é estranho olhar pra trás, tudo que vem são imagens como as de um sonho, aqueles que se mostram na TV, com algum tipo de aura branca meio esfumaçada, vozes sem som, e rostos sem feição.

Olhando em algumas fotos antigas, algumas vozes ainda vem a minha memória.


Após o meu nascimento, morei 2 anos em Uberlândia, lembro-me muito pouco de lá, como da casa em que eu me morei, e de um momento em particular, quando minha mãe tirou uma foto minha, logo após eu acordar, com cara de sono e jeito de criança tímida, peguei uma laranja, e fui para a varanda, o meu lugar predileto, quando minha mãe com a maquina na mão disse: Olha pra câmera meu querido!

Foi assim numa manhã ensolarada qualquer, que esse momento ficou marcado em minha memória.


Logo após fomos morar na cidade do Rio de Janeiro, de lá algumas me marcam até hoje, como a minha inocência, e a tendência de criar coisas do nada, como por exemplo uma segunda personalidade, não que eu seja algum tipo de maluco, ou muito menos um psicopata, mas na minha ótica eu precisava de algo para mostrar para mim mesmo que eu era muito mais do que uma criança exemplar, precisava ser alguém forte corajoso, extrovertido e engraçado, assim como nos desenhos que eu assistia, afinal, o He-man também tinha uma parte nele que era tímida, mas quando os problemas surgiam, lá estava ele com sua espada derrotando os inimigos, é claro que ninguém alem de mim sabia disso, eu tinha muita vergonha de contar para os meus pais que eu tinha um amigo imaginário, mas garanto que era muito divertido brincar comigo mesmo.


Como toda família bem estruturada, nossas férias sempre eram junto com os avós e tios, era bastante divertido, eu sempre gostava mais de ficar na casa da minha avó Otávia, uma senhora muito generosa e simpática, que sempre expressava seu amor a todos, mulher de Deus que sempre me ensinou muitas coisa que carrego até hoje em minha pratica pessoal.

Era sempre muito bom e seguro estar lá, não que eu não gostasse dos meus avós paternos, mas com a família da minha mãe eu tinha uma porção de primos, para brincar, afinal na época da minha avó não tinha TV, e o jeito era fazer filho.

São 10 no total contando com 1 que dona Otávia Batista, adotara, agora imagine, cada tio que eu tenho tem na média 2 filhos, ou seja... Primos até cansar, minhas férias eram meus únicos momentos de coletividade, e o momento mais esperado do ano, sempre era muita festa, muita comida, muita pamonha, empadinha e goiabada!

Claro no interior do Goiás não podia ser diferente, sobre todos esses sabores diferentes, eu amava o cheiro das coisas, cheiro do chocolate e pão com manteiga na chapa, que sempre me esperava quando eu acordava, cheiro do enorme quintal que a casa da minha avó possuía, cheiro da minha avó, como era bom ficar acordado até tarde com ela, ouvindo ela contar piadas, ou até mesmo assistir ela dormindo em sua cadeira de balanço, roncando e assobiando, igual nos desenhos do pica-pau.

Saudade dela gritando na varanda SIMONE! Chamando a menina que ajudava ela nos afazeres domésticos, lembrar desses fragmentos da minha vida me trás uma saudade, de um tempo em que tudo parecia tão simples e tão alegre.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Capitulo 2 - Êxodo

Dentre tantas coisas que marcaram minha vida, a que mais me recordo era a de caixas de papelão, em meio aos prantos de minha mãe, por partir da cidade em que criara vínculo, surgia sempre a esperança de encontrar o novo, de um novo mundo desconhecido, pessoas novas, lembro de cada vez meu pai falando a todos que iríamos nos mudar, e que poderíamos recomeçar, sempre era muito trabalhoso, jogar meus objetos nas caixas, ter que escolher qual brinquedo eu levaria, e qual teria que ir no caminhão de mudança, as vezes eu me sentia triste por largar minha casa, mas logo o sentimento era dominado pela expectativa de um lugar melhor, e com pessoas mais agradáveis.

Meu pai pra poupar dinheiro sempre optava por viajar de carro, era um tanto divertido, sempre gostei de viajar de carro.
Estradas, hotéis e restaurantes desconhecidos me levavam a loucura, cada parada era um tema para mais uma de minha histórias sem pé nem cabeça, assim como sempre era muito bom chegar aos novos destinos, tudo novo, vida nova, sim eu poderia ser quem eu quisesse, afinal ninguém me conhecia!

É claro que tudo tem o seu preço, o preço de me mudar, era ter que me adaptar ao estilo de vida local costumes, gosto, sotaque, tudo era novo, e um tanto bizarro em minha concepção.
Mudar de escola era muito sofrido pra mim, ainda me lembro a primeira escola que eu estudei, foi como se cortasse o cordão umbilical entre eu e minha mãe.
era sempre horrível pra mim falar que eu vinha de outra cidade, logo várias crianças curiosas, me cercavam com milhões de perguntas, o que era insuportável pra mim, com o meu pequeno trato social.

Enfim cada cidade uma história, assim foi por Uberlândia, Rio de Janeiro, Manaus, Campo Grande, Brasília, e Curitiba.

Capitulo 1 - Gênesis

Enfim começa a minha vida, nascido em uma cidade do interior de Minas Gerais, chamada Uberlândia, no hospital santa Catarina, no dia 03 de Junho de 1986, vitima de uma gravidez acidental (afinal nem todo mundo se lembra de tomar anticoncepcional), é trazido ao mundo Rafael T. Ericson Silva, entregue a uma família simples, até a presente data composta pelo pai, Francisco Adalberto da Silva, Cleila Sofia Ericson da Silva mãe amorosa, Otávio Henrrique Ericson da Silva, irmão gênio, e Renato Henrrique Ericson da Silva, irmão "atentado".

Não me recordo muito da minha infância, o pouco que eu lembro são flashs que não posso ao certo confirmar se são reais ou não, confesso que fui uma criança mimada, chorosa e tímida, não gostava de chamar atenção para mim, tão pouco que as pessoas interagissem comigo, tinha fobia de pessoas, meu pai trabalhava para o exército brasileiro, o que fazia com que eu e minha família estivéssemos em constante mudança, o que significava uma vida sem se prender a ninguém, não me recordo de possuir amigos de infância, pequenos fatos que marcaram minha vida, era a imagem de um pequeno garoto brincando sozinho em sua varanda, uma criança um tanto solitária, mas por incrível que pareça uma criança feliz.

em meio as minhas tardes, mundos eram criados, e uma nova gama de imagens se formavam em minha cabeça, minha mãe morria de orgulho de seus três filhos, os três filhos de Francisco!
lembro sempre dela contando para as amigas o quanto os filhos eram espertos, dizia ela:
-O Otávio é o menino mais inteligente de sua sala, com certeza ele é super dotado, e o Renato então, sempre aprontando, o Rafael... você precisa ver, uma gracinha, nunca dá trabalho, sempre bem quieto e obediente.

confesso que me sentia feliz por ser a representação de um garoto comportado.
ao longo do tempo minha personalidade foi mudando, e minhas atitudes começaram a incomodar, frases do tipo: "Ei o gato comeu sua língua", já não pareciam tão divertidas.
cada tentativa de interação, me recolhia cada vez mais em meu mundo, eu sempre agradecia a Deus por cada vez que eu mudava de escola e cidade.

Same old thoughts or Unsettled thoughts?

Tai... resolvi escrever... como uma mera terapia ocupacional, trocando em miúdos, mais uma forma para acabar com o tédio e enganar o ócio.
Sem nenhuma pretensão de ganhar o Pulitzer, vou simplesmente escrever, talvez não para que os outros leiam, mas por mim mesmo, de forma que eu consiga arrumar minhas ideias, sem nenhum contexto, vou escrever sobre mim! "uau! que interessante!" sim sobre mim, fatos da minha vida, meus pensamentos, os mesmos de sempre, e os inconstantes, afinal, dizem que o homem antes de morrer deve escrever um livro, ter filhos, e plantar uma árvore... pois bem... eu não tenho saco pra plantar uma árvore, muito menos moro em uma casa pra tal façanha, ter filhos.. humm olhando pra minha vida agora é algo totalmente fora de cogitação, escrever um livro pode ser, quem sabe uma auto biografia, pra começar basta um computador, e um poco de vontade!
bem vindos a minha auto-biografia.